5 Minutos de Leitura

25 05 2016

Quarta feira, 25 de maio de 2016

A propriazinha

A minha principal objeção ao cinema é esta: parece-me que ver fotografias a um ritmo de 24 por segundo é um exagero. Acaba por não se ver nenhuma fotografia como deve ser. A única ocasião em que o visionamento de 24 fotografias por segundo se justifica é quando amigos pretendem mostrar-nos os seus álbuns de casamento ou de férias. Nessas alturas, suspiro pelo cinematógrafo. Ao que parece, hoje sou o único a achar enjoativas estas sessões de exibição de fotografias da vida pessoal. O mundo mudou muito. No meu tempo, contemplar fotografias de amigos era considerado um aborrecimento. Hoje, subscrevem-se contas de instagram para poder apreciar os pés de uma amiga à beira de uma piscina, o gato de um colega dormindo, ou o aspeto da sobremesa que um amigo se prepara para comer . As fotos de outrora, sendo fastidiosas, eram, apesar de tudo, menos triviais. Havia amigos junto de monumentos, defronte de catedrais, perto de animais selvagens. Não ocorria a ninguém, regressado de férias, dizer aos amigos: «Olha que giro, aqui estão os pés da Clotilde junto à piscina do hotel.» Ou: «Temos agora uma foto de um prato de arroz-doce que o Mário comeu.» Hoje, as pessoas procuram fotos destas. Ninguém as obriga a vê-las. São elas que buscam retratos de pés alheios. Algo se passa com a humanidade.
De todas as fotografias contemporâneas, a mais perigosa é a selfie – ou, em português, a propriazinha. A selfie é o equivalente moderno da PIDE. Também persegue, tortura e mata. A PIDE contava com umas dezenas de inspetores pouco espertos e alguns bufos diligentes. As selfies contam com milhões de utilizadores pouco espertos e o facebook, o instagram e o twitter. Uma selfie, para os meus leitores do séc. XX, é uma fotografia que uma pessoa tira a si mesma, em geral com um telefone. A PIDE, para os meus leitores de século XXI, era a polícia política do Estado Novo. Há quem morra a tirar selfies em posições perigosas. Há quem seja torturado durante anos pela memória de uma selfie irrefletida. Cristiano Ronaldo está a ser perseguido por umas selfies tiradas na sua festa de aniversário. Há selfies, belfies (fotografias do próprio rabo) e felfies (fotografias do próprio junto de animais de quinta). Além da pulsão de vida e da pulsão de morte, é também muito poderosa a pulsão de publicar auto-retratos.Freud estava distraído – provavelmente, a fotografar os próprios pés junto de uma piscina.

Revista Visão – Ricardo Araújo Pereira

Texto selecionado pela BE

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