5 Minutos de Leitura

29 02 2016

Segunda feira, 29 de fevereiro de 2016

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A Vida Num Sonho

Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
– Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.

 

Rosa Lobato Faria

Texto seleccionado pela BE

 





5 Minutos de Leitura

26 02 2016

Sexta feira, 26  de fevereiro de 2016

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Jeito de Escrever

Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.

Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas…
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.

Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!

Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto – o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago…
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas. Mortas!

E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!

Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera…

Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?

Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada, da ausência e
solidão.

Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.

                                                                              

    Irene Lisboa, in ‘Antologia Poética’

Texto selecionado pela BE





5 Minutos de Leitura

25 02 2016

Quinta feira, 25 de fevereiro de 2016

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O insólito é um lugar-comum

                 Dois minutos apenas e já os primeiros curiosos chegavam ao local, sedentos de aparato e histórias cabeludas. A chapa de matrícula, onde letras e números se desentendiam, compunha uma legenda difícil num quadro que, por si só, desafiava a compreensão.
Para desilusão geral, a sinistrada, única ocupante, saiu de gatas mas por seu próprio pé. E parecia determinada a procurar no chão algo mais que pudesse ter perdido, além do controlo do carro. Palpando os lábios com os dedos, como para ajudar a desencarcerar o discurso, tentou chamar a atenção daqueles que, esquecidos do socorro, se concentravam noutras questões vitais: “Derrapou? Adormeceu? Enfrascou-se?”. As primeiras palavras vieram reanimar a assistência, dando consistência à última hipótese:
– Acho que fui atingida por um meteorito!(…)
Perante uma fila de carros desgovernada, Mário encostou à berma. Saíra de casa desconcertado, incapaz de gerir surpresa, raiva, incompreensão. (…). À passagem do reboque, compreendeu tratar-se de acidente.(…)

No perímetro do acidente, tudo difuso. Apercebeu-se de movimentações fluorescentes, de uma vibração de autoridade a ressoar numa voz, de uma atmosfera de fim de emissão, pontuada pelos intercomunicadores. Não pôde conter o pasmo: no centro de uma estranha depressão no pavimento, um carro capotado, num chão de jardim. Um escaravelho feio, inofensivo, de entranhas metálicas viradas ao céu.
– Hum… hum… aselhice ou bebedeira! – sentenciou alguém atrás de si, com um hálito incendiário. Num relance, fixou uma mulher sentada na traseira da ambulância. Embrulhada numa manta, rejeitava as diligências médicas, reiterando a sua saúde perfeita e era aconselhada por um polícia, nervoso o suficiente, a soprar num aparelhinho. Na mão, exibia um fragmento escuro, repelido com veemência, pela autoridade. Mário tentou, sem sucesso, perceber de que se tratava. Talvez um amuleto. Em que acreditaria agora?
Desiludido com os valores, o polícia acomodava o bloco dos autos à prega da barriga e principiava a escrever. Mas escrever o quê? Definitivamente, estava mergulhado no caos. Nada funcionava. Nem balão, nem semáforos; até a Central reportava dificuldades de comunicação por baixa de energia. E aquela mulher a insistir na conspiração dos astros, com um estilhaço de plástico rígido na mão. Se porventura fora este polícia uma alma mais sensível, assomar-lhe-iam decerto ao pensamento algumas reflexões sobre a fragilidade da condição humana, perante os caprichos do universo. Também ele, afinal, se sentia atingido pelo imponderável. Prestes a acabar o turno, pimba… saíra-lhe aquela ao caminho. Ao seu lado, um colega intervinha para reconduzir à Terra um guedelhudo com pinta de artista que garantia ao condutor do reboque estar na presença de uma instalação de superior arte urbana, “ao nível do melhor que se faz lá fora”. Deu o polícia umas pancadas no alcoolímetro e encostou-o ao ouvido, na esperança de lhe sentir alguma espécie de pulsar mecânico. Respirou fundo e voltou-se para a vítima:
– Vamos lá tentar novamente. Sopre aí com convicção, a ver se tudo isto começa a fazer sentido…(…)

Susana Carvalho

Texto selecionado e adaptado pela BE

 

 

 





5 Minutos de Leitura

24 02 2016

Quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

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Ciberamigos Sem Máscaras

Estamos no mês das “máscaras”. O Carnaval permite-nos fingir ser aquele herói que nos fascina ou aquela personagem do filme de terror. Se no Carnaval colocamos “máscaras”, é apenas para nos divertirmos, mas há pessoas que fora desta época as colocam, fingindo ser uma pessoa que nada corresponde à realidade, apenas com o intuito de enganar e muitas vezes magoar. Dou o exemplo de certos cibernautas que navegam pelas redes sociais.

            A internet veio alterar a nossa visão do mundo e a maneira como nos posicionamos perante ele. Com esta ferramenta, podemos viajar, comprar, comunicar, partilhar e receber informação, sem sair de casa. Alterou alguns hábitos do quotidiano que se tornaram obsoletos e fora de moda: a ida à biblioteca procurar livros para um trabalho, ir ao correio mandar uma carta, ir a uma loja comprar um produto.

            Basta um clique e temos o mundo, a biblioteca, os livros, a loja, os “amigos” ao pé de nós. A vida social também se alterou. Construir amizades já não é o mesmo. Já não se marcam encontros na escola ou no jardim, pois virtualmente consegue-se esse encontro e, ao mesmo tempo, conhecer pessoas, fazer “amigos” através de um clique. O próprio conceito de amizade foi alargado: amigo não é apenas aquele com quem nos deparámos um dia, olhámos nos olhos e a partir daí foi-se construindo uma relação de amizade cada vez mais profunda. A amizade é alargada para um mundo virtual. Amigo é também aquele que se “encontrou” e “conheceu” na Internet.

            Hoje assistimos a uma explosão de sítios de redes sociais tais como o Facebook, o Twitter, o Orkut, o MySpace… Estas redes sociais têm vários fins, mas a camada mais jovem utiliza-as com a finalidade de fazer os tais “amigos virtuais” e com eles trocar imagens, fotografias… O problema é que neste mundo virtual, tal como no mundo real, há pessoas com boas e más intenções. Alguns cibernautas colocam as tais “máscaras” e fazem-se passar por pessoas que gostaríamos de encontrar na vida real. Pessoas interessantes, sensíveis e corajosas que nos conquistam para depois facilmente nos enganar. Por detrás destas máscaras estão pessoas por vezes muito mais velhas e com más intenções. Através destas redes têm surgido sequestros com abusos sexuais, que atingem sobretudo as raparigas entre os 12 e os 15 anos. Só para teres uma ideia, em Portugal, em 2009, foram participados mais de 3000 desaparecimentos (jovens e adultos) apesar de apenas dez continuarem ainda desaparecidos, e o pior é que o número de situações de abuso potenciadas pelas redes virtuais tem continuando a aumentar.

 

Isabel Mesquita, in Audácia

Texto seleccionado pela BE





5 Minutos de Leitura

22 02 2016

Terça feira, 23 de fevereiro de 2016

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Este ano celebramos o grão, o feijão e …o tremoço

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura querem pôr o mundo a comer mais leguminosas e estabeleceu 2016 como o Ano Internacional das Leguminosas. Pouco consumidos no Ocidente, feijão, grão, ervilhas e lentilhas são uma alternativa às proteínas da carne e laticínios. A indústria alimentar já está a aproveitá-los.

Em Portugal, apesar da popularidade de pratos como a feijoada, o feijão frade com atum ou o bacalhau com grão, não se comem leguminosas em quantidade suficiente – dados de 2013 indicam que cada português come em média 3kg de feijão por ano e pouco menos de 1kg de grão.(…) A cultura do feijão existe em Portugal há muitos séculos e por todo o país. Como é uma produção de pequenos agricultores, isso deu origem a grande diversidade de variedades que não estão a ser exploradas.(…) No entanto, os agricultores mantêm-nas na sua produção, para autoconsumo, pelas caraterísticas de qualidade muito particulares. Começam já a surgir no mercado alguns produtos inovadores, (maionese de marca portuguesa), integrando uma das leguminosas mais populares em Portugal, o tremoço, e que geralmente é consumida como snack. O resultado é uma maionese alternativa, com um teor de gordura muito mais baixo do que outras, sem colesterol e de origem totalmente vegetal, além de permitir contornar os problemas de segurança alimentar associados à utilização do ovo. A indústria alimentar já percebeu este potencial e está a ser inovadora e criativa na busca de novas formas de desenvolver produtos. Gelados feitos com lentilhas ou leite de amêndoa com proteína de ervilha? Sim, já existem e se lermos com atenção os rótulos dos alimentos de produção industrial, vamos encontrar proteína, fibra ou amido de ervilha ou outras leguminosas incorporados em muitos mais produtos do que imaginamos. O Canadá é o maior exportador mundial destes alimentos – apesar de não ser grande consumidor.(…)

Jornal Público – fev.2016

Texto adaptado e selecionado pela BE

 





5 Minutos de Leitura

21 02 2016

Segunda feira,  22 de fevereiro de 2016

 

Histórias de encantar

Contos, muitos contos,

Histórias de encantar,

Uns vêm em prosa,

Outros a rimar!

 

Trazem fadas, bruxas

E até feiticeiras,

Que saem dos potes

Das nossas lareiras!

 

Trazem ogres, trasgos

E almas penadas,

Lobos, olharapos,

Mouras encantadas!

 

Há sempre castelos,

Velhos palacetes,

Onde mora o diabo

Com seus diabretes!

 

Há príncipes fortes

E belas princesas,

Há reis e reinados

Em lutas acesas!

 

Tantas aventuras,

Mezinhas, segredos,

Tesouros, encantos,

Mistérios e medos!

 

Quem é o herói?

Quem é o vilão?

Haja quem arrisque,

Que eu não digo, não!

 

A história é assim,

Assim é que a conto…

Se alguém não gostar

Aumenta-lhe um ponto!

 

Alexandre Parafita

Texto selecionado pela BE





5 Minutos de Leitura

19 02 2016

Sexta feira, 19 de fevereiro de 2016

Capturar

Astrónomo que ‘matou’ Plutão vê sinal de novo planeta no Sistema Solar

Astro seria 10 vezes mais maciço do que a Terra, com órbita de 15 mil anos.
Alinhamento de objetos além de Neptuno seria ‘rastro’ trilhado pelo planeta.

Uma análise da órbita de objetos na periferia do Sistema Solar, na zona habitada por Plutão, sugere a existência de um planeta grande, do tamanho de Neptuno, a uma distância até 200 vezes maior que aquela entre a Terra e o Sol.

Não é a primeira vez que um astrónomo propõe a existência de um “Planeta X”, mas desta vez a alegação parte de um cientista altamente prestigiado no meio. Michael Brown, do Caltech, foi o primeiro a ver Sedna, o planeta-anão cuja descoberta culminou no rebaixamento de Plutão.

Num artigo científico publicado na revista “The Astronomical Journal”, Brown apresenta os cálculos para sua alegação, realizados com seu colega Konstantin Batygin.

Segundo a dupla, a presença de um astro desse porte, com 10 vezes a massa da Terra, é a única maneira sensível de explicar o alinhamento de objetos observados no cinturão de Kuiper, a zona de planetas anões e pedregulhos gigantes que orbitam o Sol além de Neptuno.

Brown já começou a usar o telescópio japonês Subaru, em Mauna Kea, no Havai – um dos maiores do mundo – para tentar procurar o novo astro na zona orbital onde acredita que ele esteja. A sua órbita completa ao redor do Sol duraria cerca de 15 mil anos.

Por enquanto, esse é o único grande observatório implicado na busca. Astrónomos que comentaram o novo trabalho para revistas internacionais como “Science” e “Nature”, porém, afirmam que as contas apresentadas no artigo são convincentes, e devem desencadear uma busca pelo novo planeta.”Descobrir esse planeta será um desafio para a próxima geração de telescópios, talvez nem mesmo o Subaru consiga ver alguma coisa. Brown tem a obsessão em descobrir um novo planeta. Que isso não o cegue diante das evidências em contrário apontadas pela academia. Mas certamente é a pessoa certa para esse trabalho”, afirma.

Texto adaptado de: http://g1.globo.com/ciencia-e-saude

Texto selecionado pela BE