5 Minutos de Leitura

29 02 2012

Quinta-feira, 1 de março de 2012

Viagem


Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga

Texto selecionado pela BE

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Princesa (final)

29 02 2012




A invenção da psicanálise (episódio 10)

29 02 2012




5 Minutos de Leitura

28 02 2012

Quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Uma lição de vida

Um dia um perito em gestão de tempo deu uma palestra a uns estudantes, e para chegar a um ponto usou uma ilustração que eles nunca mais esqueceram. Àqueles alunos, que teriam pela frente um futuro brilhante, disse:”Muito bem, está na altura de fazermos um jogo”. Tirou uma jarra de dentro de um saco e pô-la em cima da mesa.

De seguida, tirou algumas pedras mais ou menos do mesmo tamanho e foi enchendo cuidadosamente a jarra. Quando ficou cheia até cima e não cabia mais nenhuma pedra, perguntou aos alunos: “A jarra está cheia?” Todos na sala gritaram: “Sim”.

Depois perguntou: “Está mesmo?” Voltou a ir ao saco e tirou de lá um saco de gravilha, que deitou para dentro da jarra, fazendo com que cada bocadinho preenchesse os espaços vazios entre as pedras grandes. Depois voltou a perguntar ao grupo: “A jarra está cheia agora?”. Desta vez os estudantes responderam: “Talvez não”. “Certo”, confirmou o perito.

Voltou a ir ao saco debaixo da mesa e tirou um bocado de areia, que deitou para dentro da jarra e ocupou o espaço entre as pedras e a gravilha. Mais uma vez perguntou: “A jarra está agora cheia?” “Não”, gritou a aula inteira. Mais uma vez disse: “Certo”.

Agarrou depois num copo de água e deitou para dentro da jarra até ficar mesmo cheia até cima. Olhou para a aula e perguntou:”Qual é a conclusão desta demonstração?” Um dos alunos levantou a mão e disse: “A conclusão é que por mais  que a sua agenda esteja cheia, se tentar arduamente consegue sempre encaixar mais algumas coisas”.

“Não”, disse o orador, “essa não é a conclusão. A verdade que esta demonstração nos ensina é: se não pões as pedras grandes primeiro, nunca as vais conseguir pôr depois. E quais são as “pedras grandes” na tua vida? Os pais, as pessoas que amas, a tua educação, os teus sonhos, uma causa que valha a pena, ensinar ou guiar os outros, fazer coisas que gostas, tempo para ti, a tua saúde, os amigos…” (…)

 

Marta Barbosa, “Uma lição de vida”

Revista Xis nº92 (suplemento do jornal Público)

Dezembro de 2000

 

Texto selecionado pela BE





5 Minutos de Leitura

27 02 2012

Terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O Violinista

As pessoas que passavam naquela rua não deixavam de parar, nem que fosse por breves segundos, para ouvir as melodias do violinista. Ele tocava ali, todos os dias, durante uma hora, mas sem qualquer tipo de recipiente para que as pessoas deitassem moedas. Tocava apenas porque queria fazê-lo. As pessoas iam passando e, muitas vezes, comentavam com outras acerca daquele estranho violinista, que estava ali todos os dias, sem pedir rigorosamente nada. Ninguém o entendia, nem se esforçava por entendê-lo, uma vez que aquele hábito chegara à condição de tradição, algo inquestionável e, de certa forma, poderoso. O violinista fazia parte daquela rua e a melodia que recriava naquele espaço fazia parte do contexto. Era indispensável, para muitas pessoas.

O dono do café que ficava em frente ao local do concerto diário sabia da verdadeira história. Nunca a contava, pois sentia que aquele homem tinha aquele hábito por direito próprio, direito esse que abrangia a própria discrição. O dono do café não sentia ter, por isso, qualquer tipo de legitimidade para partilhar com os clientes a verdadeira história daquele ritual. Muitas vezes, um ou outro cliente, que estivesse de passagem, pela primeira vez, naquela rua, perguntava ao dono do café quem era aquele violinista, ou qual o motivo pelo qual tocava ali violino, sem pedir o que quer que fosse. “Deve ser por gosto”, dizia o dono do café, tentando simular alguma indiferença.

O violinista tivera, um dia, um grande amor. A relação não durou muito tempo, mas foi suficientemente intensa para deixar marcas. Quando a mulher por quem o violinista se apaixonara decidiu terminar a relação, ele prometeu a si mesmo que voltaria, todos os dias, ao local onde se encontraram pela última vez, para tocar violino enquanto esperava que ela voltasse. Nos primeiros dias, a esperança manteve-se intacta. Aos poucos, o violinista foi deixando de acreditar e, um dia, sentiu profunda convicção de que a mulher não voltaria. Mas nunca deixou de tocar violino, pois lembrava-se, a cada nota que ia soltando, de muitos momentos que passou na companhia daquela mulher.

Às vezes, o dono do café perguntava a si mesmo se, algum dia, aquele homem deixaria de ali estar. Se o motivo que o levava ali, todos os dias, uma hora de cada vez, era assim tão forte. Mas estas ideias apontavam, invariavelmente, no mesmo sentido: só o violinista saberia qual a dimensão da força que o levava a manter aquele hábito diário.

Um dia, a mulher por quem o violinista esperava, mesmo sem saber se este ainda a amava, passou pelo local onde este costumava estar. Foi a primeira vez que a melodia fora interrompida sem ser para o violinista se ir embora. Ele parou porque, simplesmente, não conseguia tocar. Olhou a mulher, ao longo de vários segundos, cada um deles parecendo uma eternidade, e pousou o violino. Trocaram palavras de circunstância. Perceberam que o acaso, nada mais do que isso, os juntara, de novo, naquele local. Saíram dali, para conversar.

No dia seguinte, o violinista não estava no local do costume. As pessoas que por ali passavam, todos os dias, não deixaram de notar que faltava ali qualquer coisa. Um olhar mais atento e uma certeza surgia: o violinista não estava lá. Muitas pessoas comentaram entre si a ausência do músico e da melodia. Outras até lamentaram essa ausência. Havia uma pessoa, apenas, que sorria, ao constatar aquele facto: o dono do café. Ele sabia que o violinista não estava ali por um motivo muito concreto. Pelo melhor de todos os motivos.

João Nogueira Dias, in http://aquicontoeu.blogspot.com/

Texto selecionado pela BE

 





5 Minutos de Leitura

26 02 2012

Segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Mais tarde ou mais cedo, todos os muros vão cair

A 9 de Novembro de 1989 caiu o Muro de Berlim. Considerado como o símbolo maior da Guerra Fria – que opôs os Aliados (defensores do capitalismo) à URSS (apologista do socialismo, que acabaria, também ela, por ser extinta dois anos depois) –, foi derrubado depois de 28 longos anos de opressão, violência e divisão de mais de quatro milhões de nacionais de um mesmo país, detentores de uma mesma identidade.

A queda do Muro de Berlim representou muito mais do que o fim do comunismo. Evidenciou, sobretudo, a vontade de um povo em banir fronteiras artificiais, impostas, de cariz separatista. De facto, a tenacidade dos germânicos fez com que se tornasse real a queda deste muro que dividiu uma cidade a meio, separou casas, prédios, ruas, casais, famílias e amigos. Tinha 66,5 quilómetros de extensão, gradeamento elétrico, valas para dificultar a sua passagem e 302 torres de vigia com guardas prontos a disparar à mínima tentativa de passagem não autorizada. E diz-se que 1.065 pessoas foram mortas na tentativa de o ultrapassar. São demasiados mártires deste período menos feliz da nossa História, a somar a tantos outros.

Hoje, atenta à importância deste acontecimento, cerca 40 países de todos os continentes do Mundo guardam um pedaço do famigerado Muro de Berlim. No entanto, esta lembrança pouco mais é do que um simples “souvenir”. Assim como ainda existem partes do Muro de Berlim que permanecem de pé, tantos muros subsistem também, erguidos mundo fora, bem alto, que separam povos, culturas e ideologias e que violam os direitos fundamentais mais elementares. Três exemplos, apenas meros exemplos: o muro da Cisjordânia, construído em 2002, declarado ilegal pelo Tribunal Internacional de Justiça de Haia dois anos depois e que, apesar disso, se mantém de pé, símbolo de segregação a pretexto de razões de segurança; o muro que separa o México dos Estados Unidos da América, com cerca de 965 quilómetros, erguido em 1994 e que já fez mais de 6.000 vítimas mortais; o “muro” de água que isola, até hoje, Cuba do resto do mundo, mantendo os seus cidadãos reféns de uma ideologia castradora, autoritária e opressiva.

João Paulo II, em 1990, a propósito da queda do Muro de Berlim, escreveu que “[…] as liberdades fundamentais, que dão significado à vida humana, não podem ser reprimidas nem sufocadas por muito tempo”. Eu acredito nisto. Estou certa de que nenhuma divisão, seja ela física ou (meramente) virtual, pode impedir os seres humanos de pensar, questionar, lutar e querer. Mais tarde ou mais cedo, todos os muros vão cair.

Maria de Deus Botelho in Público 

Texto selecionado pela Be





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24 02 2012

Revista QUERO SABER