A BE deseja a todos um Feliz Natal e um próspero Ano Novo

15 12 2011

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5 Minutos de Leitura

15 12 2011

5 Minutos de Leitura

Sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

 

 

NATAL À BEIRA-RIO

 
É o braço do abeto a bater na vidraça?

E o ponteiro pequeno a caminho da meta!

Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,

A trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.

Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!

E o Menino nascia a bordo de um navio

Que ficava, no cais, à noite iluminado…

Ó noite de Natal, que travo a maresia!

Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.

E quanto mais na terra a terra me envolvia

E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me

À beira desse cais onde Jesus nascia…

Serei dos que afinal, errando em terra firme,

Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

David Mourão-Ferreira, Obra Poética 1948-1988

Lisboa, Editorial Presença, 1988

 

Texto selecionado pela BE

 





Noite Feliz

15 12 2011




O porquê das coisas

15 12 2011

Quais são os problemas sociais e ambientais consequentes do nosso hábito consumista?  Este vídeo apresenta os problemas deste sistema e a solução para revertermos esta situação.





5 Minutos de Leitura

14 12 2011

5 Minutos de Leitura

Quinta-feira,  15 de dezembro de 2011

 

Chancas na chaminé

 

            Que idade eu tinha? Não sei. Lembro-me apenas que era uma daquelas noites de Natal com muito frio na natureza e muito calor nas almas. E que eu tinha umas chancas velhas e cambadas. Como todas as crianças, acreditava e sonhava.

            Ora eu ouvia falar que o Menino Jesus (ou o Pai-Natal) pela calada da noite bendita descia das alturas celestiais carregando um farto taleigo de brinquedos, que distribuía, libérrimo, pelas crianças que colocassem os sapatinhos na chaminé. Roía-me, então, um possessivo e secreto desejo: um triciclo. Daqueles como só tinha, por ali, o Danielinho da Boavista. Daria mundos para ter um triciclo assim, todo cromado e colorido, com uma campainha que retinia o próprio som da felicidade. Como remedeio, engenhocava toscas motoretas de madeira, que montava ladeiras abaixo e depois carregava às costas para nova corrida, numa penitência de Sísifo. Triciclo era outra coisa; limpa, perfeita, digna de se mostrar. Claro que não era artigo de caber nas chancas cambadas de um pobre garoto camponês. Mas talvez o divino infante (ou o velho bonacheirão) operasse um prodígio do tamanho de meus devaneios.

            As dúvidas, porém, acumulavam-se no meu débil espírito. Umas chancas, de mais a mais velhas e cambadas, para receptáculo de uma dádiva divina? Sapatos eu não tinha, que a vida não dava para requintes tais. Pensei aconselhar-me com adultos, mais entendidos na matéria, mas a timidez tolheu-me o propósito. As crianças pobres adquirem um doloroso complexo de inferioridade que as privam do mais inalienável dos seus direitos: a própria infância. A vida torna-as adultas prematuramente.

            Depois da farta ceia (que o era, graças a Deus!) e da animada seroada que sempre se lhe seguia entre odores de pinha e mimos de culinária, recolhi ao quarto. E a ideia colada a mim: – Põe lá as chancas, rapaz! Nada tens a perder; o muito que te pode acontecer é encontrá-las, de madrugada, tristes e esquecidas no rebordo fuliginoso da chaminé… Deixei que todos se deitassem e quando se ouvia apenas o assobio do vento pelos telhados, em pés de lã, passei-me à cozinha de chancas na mão e possuído daquela fé que remove montanhas. Serviço feito, voltei à cama e adormeci embalado por um sonho colorido, onde uma grácil figura de menino, de asas muito brancas, esvoaçava em redor da chaminé. Despertava ao mais leve rumor e todo me concentrava naquela ansiedade. A noite parecia não ter fim e povoada de legiões de anjos, vencendo a fúria dos ventos e o vergastar do temporal.

            Aos primeiros indícios de alvorada não me contive; deixei o morno das mantas e corri à lareira o prodígio do meu sonho febril. Subi tão pressuroso a chaminé que me desgarrei de um barrote queimado o me estatelei no chão, arrastando comigo as pobres chancas, tão vazias e cambadas como as deixara na véspera.

            Ao estardalhaço da queda acorreu, solícita, minha mãe:

            – Que andas a fazer por aqui a estas horas?

            – Vim buscar as chancas, que ficaram a enxugar no rescaldo do lume…

 

Claúdio Lima, in texto com primeira publicação no jornal

<Cardeal Saraiva>  – Ponte de Lima – em 18-12-1981

Texto selecionado pela BE





Que mundo maravilhoso!

14 12 2011




5 Minutos de Leitura

14 12 2011

5 Minutos de Leitura

Quarta-feira,  14 de dezembro de 2011

 

Aprender com o camaleão

 

          O camaleão é um excelente professor.

             Observem-no de perto.

            Qualquer que seja a direção que escolhe, não muda. Faça o mesmo. Tenha uma meta na sua vida e não deixe que nada nem ninguém o distraia.

            A cabeça do camaleão nunca mexe, mas os seus olhos mexem-se constantemente. Não lhe escapa nada. O que significa: descubra tudo o que conseguir. Nunca pense que é a única pessoa no mundo.

            Onde quer que esteja, o camaleão adapta a sua cor consoante o meio. Isto não é hipocrisia. Significa, sim, ser tolerante e também ter competências sociais. A confrontação não leva a lado nenhum. Não nascem resultados construtivos de uma batalha. Devemos sempre tentar perceber os outros. Nós existimos e devemos aceitar que os outros também existem.

            Quando o camaleão se mexe, levanta as patas e hesita. Isto significa caminhar com cuidado. Quando se mexe, agarra-se bem com a sua cauda – se perder a base, ainda se consegue agarrar. Protege a sua retaguarda. Por isso, faça o mesmo: não aja por impulso.

            Quando o camaleão avista a sua presa, não a ataca com um salto, mas usa a língua. Se a conseguir alcançar com a língua, melhor, caso contrário, recolhe a língua e ninguém sai prejudicado. O que quer que faça, faça-o com cuidado. Se quiser algo duradouro, seja paciente, seja bom, seja humano.

 

Amadou Hampaté Bâ

Texto selecionado pela BE