5 Minutos de Leitura:Fernando Pessoa

29 11 2010

5 Minutos de Leitura

Terça-Feira, 30 de Novembro de 2010

 

Nos 75 anos da Morte de Fernando Pessoa

 

 Autopsicografia

 

 O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.

                                   Fernando Pessoa

Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, a 13 de Junho de 1888. Ficou órfão de pai aos dois anos de idade e a mãe casou-se então com o cônsul português em Durban, África do Sul, para onde foram viver. Na África do Sul, Fernando Pessoa frequentou a high school de Durban e recebeu o prémio Rainha Vitória de estilo inglês, em 1903, no exame de admissão à Universidade do Cabo da Boa Esperança.

Aos dezassete anos de idade regressou a Lisboa. Trabalhou como tradutor e correspondente em diversas empresas comerciais; ao mesmo tempo em que se dedicava intensamente à literatura. Matriculou-se na Escola Superior de Letras, mas não concluiu. Participou na publicação de várias revistas literárias, como a Orpheu, a mais representativa do Modernismo, movimento literário e cultural que Fernando Pessoa introduziu em Portugal, com Almada Negreiros e Mário de Sá- Carneiro, entre outros.

A obra de Fernando Pessoa divide-se em ortónima, publicada sob o seu próprio nome, e heterónima, publicada sob o nome de diferentes poetas/personalidades que ele criou. Os seus principais heterónimos são Alberto Caeiro, Ricardo Reis, e Álvaro de Campos.

A obra poética de Fernando Pessoa é imensa: Mensagem, o único livro que foi publicado em vida do autor e pelo autor; Cancioneiro; Poemas completos de Alberto Caeiro; Odes de Ricardo Reis; Poesias de Álvaro Campos; Poemas dramáticos; Poemas ingleses; Inéditas; Novas Inéditas… A obra em prosa apresenta também muitos textos, além do Livro do Desassossego – do heterónimo Bernardo Soares.

Fernando Pessoa morreu em Lisboa, a 30 de Novembro de 1935.

Apesar da extraordinária grandeza da Obra de Pessoa, conhecida e apreciada em todo o mundo, ela não foi ainda publicada na totalidade, pois ele deixou num baú muitos milhares de textos escritos, que estão a ser organizados para posterior publicação.

É considerado um dos maiores e melhores poetas de todos os tempos, de Portugal e do Mundo, mantendo-se bem vivo entre nós.

 

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

                                                      Fernando Pessoa (Ricardo Reis)

Texto seleccionado e adaptado pela BE.

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Fernando Pessoa

29 11 2010




5 Minutos de Leitura:Ler é dar pão ao espírito

29 11 2010

5 Minutos de Leitura

Segunda-Feira, 29 de Novembro de 2010

 

“ Ler é dar pão ao espírito”

 

(…) Como nessa altura eu era franzino, e mal podia com um alqueire de milho às costas, minha mãe, depois de muito discutir com a avó Rosa, que não concordava que eu seguisse esse caminho, uma tarde foi a casa de Guilhermino Bicho e pediu-lhe que me aceitasse como aprendiz de sapateiro (…)

Eu não sabia se gostava de ser sapateiro. Mas não me importei com a decisão da minha mãe porque desde menino sempre tivera uma grande admiração pelo Guilhermino Bicho. O seu verdadeiro e completo nome era Guilhermino José de Carvalho. Bicho era a alcunha da família. E ele não se importava que o tratassem assim.

(…) Bufava como uma cobra quando o trabalho saía imperfeito e tinha o costume de aplacar a ira espetando a ponta da sovela nas canelas dos aprendizes(…)

Com o correr do tempo fui-me habituando às suas bufadelas, fazia de conta que não era nada comigo, e tentava fazer com brio o trabalho que ele me destinava. E como eu gostava de brincar com o Nero, Guilhermino fazia vista grossa aos meus erros e eu tinha a certeza que ele gostava de mim. Menos às segundas-feiras. Nesses dias que nunca mais passavam, não parava de me azucrinar e ameaçar-me com a ponta da sovela. Eu dava-lhe um “desconto”, como a minha mãe me recomendava, farto de saber que o Bicho era viciado no jogo das cartas.

Todas as tardes de domingo, chovesse ou fizesse sol, costumava ir jogar cartas na tasca do Joaquim Maneta. Celebrava as vitórias e esquecia as derrotas com quartilhos de vinho maduro tinto. O resultado final era uma bebedeira que o pobre do cão tinha de acompanhar pois também gostava de beber vinho, o que causava muito espanto e grande risota no Plameiro.(…)

Apesar desse pecadilho, e levante a mão quem não tiver defeitos, como gostava de dizer a minha avó Rosa, Guilhermino era o único da aldeia que recebia correspondência diariamente. Bastante contrariado por ter de fazer uma grande caminhada, o Fonseca carteiro entregava-lhe na oficina, por volta das onze da manhã, um exemplar do jornal O Primeiro de Janeiro.

E foi nesse jornal que eu aprendi, fazendo diariamente as palavras cruzadas, que um reco é a mesma coisa que um tó, um altar é uma ara e um ósculo é um beijo com seis letras.

No Plameiro dizia-se que em casa do Guilhermino Bicho havia o livro de S. Cipriano, que ele tinha um pacto com o diabo e sabia fazer bruxarias. Mas não era verdade. Guilhermino era em muitos aspectos um homem diferente dos outros. Embora se embebedasse, e fosse viciado no jogo de cartas, sobretudo na sueca, que jogava com paixão na taberna do Joaquim Maneta, sempre acompanhado pelo Nero, que cambaleava tanto ou mais que o dono quando voltavam para casa, Guilhermino gostava muito de ler. Essa é que era a novidade.

Nessa altura, a maioria daquela gente, incluindo a minha avó, nem sequer o nome sabia assinar(…)

– Gilinho, os livros dão-nos a conhecer o mundo e os homens. Quando se lê não se está a perder tempo. Essa gente do Plameiro é muito atrasadinha, não ligues ao que eles dizem. Ler é dão pão ao espírito.

Era uma frase que eu gostava muito de ouvir embora, aqui o confesso, não soubesse muito bem o que ela queria dizer.

Muitas vezes, quando não havia calçado para compor, Guilhermino Bicho abria a tampa da caixa e retirava um livro. Os livros tinham um cheiro esquisito, mas eu gostava de os folhear a ver se encontrava desenhos.

E foi assim que eu viajei ao centro da Terra, com o Júlio Verne a capitanear o sonho, e dei a volta ao Mundo em 80 dias.

 

António Mota, Os Sonhadores, 1ª edição, Ed. Edinter, 1991 (Texto com supressões)

 

Texto seleccionado pela professora Liliana Silva

 





5 Minutos de Leitura

25 11 2010

5 Minutos de Leitura

Sexta-Feira, 26 de Novembro de 2010

 

MENSAGEM DO ENTÃO SECRETÁRIO-GERAL DA ONU, KOFI ANNAN, POR OCASIÃO DO
DIA INTERNACIONAL PARA A ELIMINAÇÃO DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES,

 

Em 25 de Novembro de 2006

 

A violência contra as mulheres continua a ser extremamente comum no mundo. Trata-se da manifestação mais atroz de discriminação sistemática e de desigualdade que as mulheres enfrentam, na lei e na sua vida quotidiana, em todo o mundo. Esta violência ocorre em todas as regiões, todos os países e todas as culturas, independentemente do nível de vida, da classe social, da raça ou da etnia.

A violência de género tem igualmente efeitos nefastos para o conjunto da sociedade: pode impedir as mulheres de exercerem uma actividade produtiva e as jovens de frequentarem a escola. Torna as mulheres mais vulneráveis às relações sexuais forçadas ou não protegidas, o que contribui consideravelmente para a propagação do VIH/SIDA. Desestabiliza profundamente e de um modo duradouro toda a família, em particular a geração futura.

A violência contra as mulheres causa enorme sofrimento, deixa marcas nas famílias, afectando as várias gerações, e empobrece as comunidades. Impede que as mulheres realizem as suas potencialidades, limita o crescimento económico e compromete o desenvolvimento. No que se refere à violência contra as mulheres, não há sociedades civilizadas.

Metade da humanidade vive sob esta ameaça – em todos os continentes, em todos os países e em todas as culturas, independentemente do rendimento, da classe, da raça ou do grupo étnico. Isto apesar de vivermos num mundo em que os direitos humanos foram reconhecidos pela lei e garantidos em instrumentos internacionais; apesar de termos aprendido que o gozo dos direitos humanos é essencial para o bem-estar dos indivíduos, das comunidades e do mundo; apesar de, na Cúpula Mundial de 2005, os dirigentes se terem comprometido a redobrar os esforços para eliminar todas as formas de violência contra as mulheres.

A luta contra este flagelo exige que abandonemos uma maneira de pensar que é ainda demasiado comum e está demasiado enraizada e adoptemos outra atitude. Que demonstremos de uma vez por todas que, no que toca à violência contra as mulheres, não há razões para ser tolerante nem justificações toleráveis.

Durante anos, as organizações e movimentos de mulheres de todo o mundo trabalharam incansavelmente para retirar a violência contra as mulheres do âmbito privado e a colocar na esfera pública, para que o Estado assuma as suas responsabilidades. Muitos Estados promulgaram e aplicaram leis eficazes e prestaram serviços integrados e sensíveis às necessidades das vítimas. E também se registaram progressos na elaboração de normas internacionais.

É altura de elevar estes esforços a um nível superior. Devemos trabalhar juntos para criar um ambiente em que a violência contra as mulheres não seja tolerada. Neste Dia Internacional para Eliminação da Violência contra as Mulheres, unamos – todos nós, homens e mulheres – as nossas forças para cumprir essa missão.

 

Fonte: Centro de Informação das Nações Unidas em Bruxelas – RUNIC (texto com supressões)

 

Texto seleccionado pela BE

 





25 de Novembro – Dia Internacional da Não Violência Contra as Mulheres

24 11 2010




5 Minutos de Leitura:O Criador de Fígados

23 11 2010

5 Minutos de Leitura

Quinta-Feira, 25 de Novembro de 2010

 

O criador de fígados

Pedro Baptista conseguiu produzir órgãos humanos em laboratório e marcou pontos na Medicina Regenerativa

Por  SARA SÁ

 

Saber de cor os horários dos restaurantes da cidade de Winston-Salem, na Carolina do Norte, é uma questão de sobrevivência para Pedro Baptista, 33 anos. A viver nos EUA há sete anos, o cientista nunca se adaptou aos hábitos dos americanos. Em vez de cumprir o típico período laboral das oito às cinco, o português prefere chegar ao laboratório pelas dez da manhã, prolongando o trabalho pela noite dentro. «Já sei que, depois das nove da noite, há muita coisa fechada. A essa hora, tenho de saber exactamente onde posso jantar. Depois das 11, só me safo com fast food. Ou com o Wall Mart [supermercados abertos 24 horas]», brinca. Apesar do êxito recente, Pedro mantém a simplicidade de quem cresceu em Castelo Branco e toma como sua a terra dos avós, no Pé da Serra, concelho de Nisa.

Num congresso de hepatologistas, Pedro Baptista, líder de um grupo de investigação na Universidade de Wake Forest, apresentou os últimos resultados, que correram o mundo: fígados humanos inteiramente criados em laboratório. Apesar de não medirem mais que dois centímetros e meio, os pequenos órgãos representam uma potencial solução para os transplantes hepáticos. Até agora, Pedro e a sua equipa já conseguiram produzir 68 miniaturas, com quatro centímetros cúbicos de volume – um fígado de adulto tem 400 centímetros cúbicos. Há muito caminho pela frente. De qualquer forma, a ideia nunca será atingir a dimensão total, mas 3o% dela. «Depois de transplantado, o tecido continua a crescer», explica. Além do interesse para esta área da Medicina, os fígados de laboratório também podem tornar-se um excelente auxiliar da investigação farmacológica, servindo para testar a toxicidade de novas moléculas. Leopoldo Matos, 61 anos, hepatologista e director de serviço em Lisboa, assistiu, com entusiasmo, à apresentação de Pedro Baptista, naquele congresso, em Boston. «Este trabalho oferece ainda perspectivas para o tratamento do cancro do fígado», diz o médico.

Farmacêutico de origem, não foi difícil para Pedro, que, em criança, queria «ser cientista e inventar coisas novas», escolher esta via de investigação. «O fígado é um órgão complexo, crucial para a transformação de substâncias químicas, como as drogas ou os medicamentos», justifica. Depois de uma breve passagem pela indústria, Pedro conseguiu ingressar no programa de doutoramento da Gulbenkian. Terminada esta fase, foi contratado pela Universidade de Wake Forest, instituição privada de grande tradição médica nas áreas de Dermatologia e Cirurgia Plástica, com recursos generosos, laboratórios bem equipados e ambiente multinacional. «Não é possível comparar com as condições em Portugal», diz. «Mas o que mais admiro aqui é a capacidade de acreditar no trabalho. As pessoas sabem que a dedicação leva ao sucesso.» É por isso que, apesar das saudades de casa, se vai mantendo na Carolina do Norte. Pelo menos até atingir o seu objectivo de transplantar com sucesso os fígados criados em laboratório. Depois disso, espera regressar à pátria e poder assistir, em directo, aos jogos de futebol do seu Benfica.

Visão, 11 de Novembro de 2010

Texto seleccionado pelo prof. Octávio Pinheiro





37 Partes de Violoncelo

23 11 2010

 37 partes de violoncelo, gravadas individualmente, e executadas pelo músico Ethan Winer, para compor uma só música. Ethan Winer também interpeta as partes da percurssão no seu violoncelo. Um projecto que demorou centenas de horas para ser concretizado e que vale a pena ser ouvido.