5 Minutos de Leitura

23 05 2016

Terça feira, 24 de maio de 2016

Querem uma Luz Melhor que a do Sol!

AH! QUEREM uma luz melhor que
a do Sol!
Querem prados mais verdes do que estes!
Querem flores mais belas do que estas
que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontentam,
O que quero é um sol mais sol
que o Sol,
O que quero é prados mais prados
que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores
que estas flores –
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Texto selecionado pela BE

Anúncios




5 Minutos de Leitura

22 05 2016

Segunda feira, 23 de Maio de 2016

300px-Pots_for_sale_in_Kenya

A VELHA E OS LOBOS

 

Uma velha tinha muitos netos, um dos quais estava ainda por batizar.  Um  dia a  boa velhinha  saiu a procurar um padrinho para o seu netinho e no caminho encontrou  um lobo, que lhe perguntou: «Onde vais tu velha ?» Ao que ela respondeu: “ Vou arranjar um padrinho para o meu neto.” “Ó velha, olha que eu como-te!” “Não me comas que, quando se batizar o meu menino, dou-te arroz–doce.” Foi mais adiante e encontrou outro lobo que lhe fez a mesma pergunta e ela deu-lhe a mesma resposta. Depois encontrou um homem que lhe perguntou o que ela ia fazer e, como ela lhe respondesse que ia procurar um padrinho para o seu neto, ele ofereceu-se logo para isso. Depois a velha contou-lhe o encontro que tinha tido com os lobos e o homem deu-lhe uma grande cabaça e disse-lhe que se metesse dentro dela que assim iria ter a casa sem que os lobos vissem. A velha meteu-se na cabaça e esta começou a correr, a correr, até que encontrou  um lobo  que lhe perguntou : Ó cabaça, viste por aí uma velha?

– Não vi velha, nem velhinha;

– Não vi velha, nem velhão;

– Corre, corre, cabacinha

– Corre, corre, cabação.

Mais adiante encontrou outro lobo que perguntou também: Ó cabaça, viste por aí uma velha?

Não vi velha, nem velhinha;

Não vi velha, nem velhão;

Corre,  corre, cabacinha

Corre, corre, cabação.

A velha, julgando que já estava longe dos lobos, deitou a cabeça fora da cabaça mas os lobos, que a seguiam, saltaram-lhe em cima e comeram-na.

Adolfo Coelho – “Contos Populares Portugueses”

Texto selecionado pela BE





5 Minutos de Leitura

20 05 2016

Sexta feira, 20 de maio de 2016

 images (2)

A Importância das árvores

A Floresta faz muito mais por nós, seres humanos, do que providenciar lindos passeios e lenha.

 

As árvores são os pulmões do nosso planeta. Enquanto parte essencial do ciclo do carbono, quando fazem a fotossíntese para produzirem o seu alimento absorvem dióxido de carbono e convertem-no para libertar oxigénio, armazenando o resto do carbono, que se decompõe no solo quando a árvore morre. Quando toda uma floresta o faz, a admissão de CO2 é enorme. Com o peso que o aumento dos níveis de CO2 na atmosfera tem nas alterações climáticas, o trabalho das árvores torna-se ainda mais importante. Estima-se que todas as árvores do planeta absorvam até 40% do CO2 gerado pelo Homem anualmente. Quando as árvores são derrubadas, este armazenamento de carbono é eliminado, tal como a capacidade da árvore para estabilizar o solo e absorver água. A desflorestação cria uma paisagem onde a água flui de modo ininterrupto, levando consigo solo arável valioso rico em nutrientes – deixando a terra árida e estéril. É um desastre para a agricultura e para aqueles que dela dependem. Cheias repentinas semeiam a destruição e ameaçam a vida humana, e já foram diretamente relacionadas com a supressão de árvores em todo o mundo. A jusante, o solo removido pelas cheias é depositado à medida que o fluxo de água se esgota, podendo obstruir represas e causar outros problemas.

Revista Quero Saber

 Texto selecionado pela BE





5 Minutos de Leitura

19 05 2016

Quinta feira, 19  de maio  de 2016

images (1)

Se estou só, quero não ‘star

 

Se estou só, quero não ’star,

Se não ‘stou, quero’star só.

Enfim, quero sempre estar

De maneira que não estou.

 

Ser feliz é ser aquele.

E aquele não é feliz

Porque pensa dentro dele

E não dentro do que eu fiz.

 

A gente faz o que quer

Daquilo que não é nada,

Mas também se o não fizer

Fica perdido na estrada.

 

Fernando Pessoa, Poesia (1931-1935 e não datada)

 

Texto selecionado pela BE

 





5 Minutos de Leitura

18 05 2016

Quarta feira, 18  de maio de  2016

7875joaninha

Coisas Simples

Há um tempo para fazer coisas e um tempo para não fazer nada, mas, como todos sabemos, hoje em dia é extraordinariamente difícil ficar sem fazer nada e sem sentimentos de culpa. Acontece que ficar sentado a olhar para o ar ou para os pés, sonhar de olhos abertos ou fechados ou passar uma hora seguida em contemplação pode ser um excelente meio de regenerar e nos tornarmos mais eficazes. Porventura até mais felizes.

Quebrar a rotina das horas, interromper a vertigem dos dias e diluir a angústia de algumas noites é a única maneira de sobreviver ao caos em que vivemos. Imaginamos sempre que não temos tempo a perder, que tudo é importante e nada se pode adiar e, no entanto, nada disto é verdade. Ou, pelo menos, inteiramente verdade.

É preferível fazer, de vez em quando, uma pausa para olhar pela janela do escritório do que acabar pendurado à janela de um quarto de hospital a ver as horas passar. Mesmo não chegando a situações extremas, vale a pena pensar nisto, mudar de atitude e dar por bem empregues todos os momentos “perdidos” sem fazer rigorosamente nada.

Na verdade todo o tempo que  passarmos a apreciar as coisas simples da vida é tempo ganho. Muitas pessoas têm a mania de dizer que os poetas são pessoas distraídas e não parecem deste mundo. O ar com que ouvem os outros, a atenção com que olham para as coisas e o tempo que dedicam a  tentar  perceber  o essencial, de facto não confere com a imagem clássica de uma pessoa ocupada e eficaz. E, no entanto, eles não andam nada distraídos. Antes pelo contrário, vivem concentrados naquilo que acham importante.

Nós, os que não somos poetas, também podemos fazer um esforço e, de vez em quando, fazer um ar que não é deste mundo e deixarmo-nos ficar a pensar na vida, a lembrar bons velhos tempos ou, simplesmente a giboiar.

Se não exagerarmos e soubermos aproveitar cada um destes momentos de “dolce fare niente” para relaxar, meditar ou criar um vazio regenerador, garantimos não só a saúde mental como a boa forma espiritual.

 

Laurinda Alves

Texto selecionado pela BE





5 Minutos de Leitura

17 05 2016

Terça feira,  17 de  maio de 2016

images 

O Tempo Vale Muito Mais do que o Dinheiro

Perder tempo não é como gastar dinheiro. Se o tempo fosse dinheiro, o dinheiro seria tempo. Não é. O tempo vale muito mais do que o dinheiro. Quando morremos, acaba-se o tempo que tivemos. Quando morremos, o que mais subsiste e insiste é a quantidade de coisas que continuam a existir, apesar de nós. O nosso tempo de vida é a nossa única fortuna. Temos o tempo que temos. Depois de ter acabado o nosso tempo, não conseguimos comprar mais. Quando morreu o meu pai, foi-se com ele todo o tempo que ele tinha para passar connosco. As coisas dele ficaram para trás. Sobreviveram. Eram objectos. Alguns tinham valor por fazer lembrar o tempo que passaram com ele – a régua de arquitecto naval, os relógios – quando ele tinha tempo.
As pessoas dizem «time is money» para apressar quem trabalha. A única maneira de comprar tempo é de precisar de menos dinheiro para viver, para poder passar menos tempo a ganhá-lo. E ficar com mais tempo para trabalhar no que dá mais gosto e para ter o luxo indispensável de poder perder tempo, a fazer ninharias e a ser-se indolente.  A ideologia dominante de aproveitar bem o tempo impede-nos de perder esses tempos. Quando penso no meu pai, todas as minhas saudades são de momentos que perdi com ele. Uma noite, numa cabana no Canadá, confessou-me que o único filme de que gostava era «Um Peixe Chamado Wanda«. Todos os outros eram uma perda de tempo. Perdemos a noite inteira a falarmos e a rirmo-nos disso. Ainda hoje tem graça.

                                                                            Miguel Esteves Cardoso, in ‘Jornal Público (26 Dez 2011)’

 

Texto selecionado pela BE

 

 

 





5 Minutos de Leitura

16 05 2016

Segunda feira, 16  de maio de 2016

 

Os Amigos Nunca São para as Ocasiões

Os amigos nunca são para as ocasiões. São para sempre. A ideia utilitária da amizade, como entreajuda, pronto-socorro mútuo, troca de favores, depósito de confiança, sociedade de desabafos, mete nojo. A amizade é puro prazer. Não se pode contaminar com favores e ajudas, leia-se dívidas. Pede-se, dá-se, recebe-se, esquece-se e não se fala mais nisso.
A decadência da amizade entre nós deve-se à instrumentalização que tem vindo a sofrer. Transformou-se numa espécie de maçonaria, uma central de cunhas, palavrinhas, cumplicidades e compadrios. É por isso que as amizades se fazem e desfazem como se fossem laços políticos ou comerciais. Se alguém «falta» ou «não corresponde», se não cumpre as obrigações contratuais, é logo condenado como «mau» amigo e sumariamente proscrito. Está tudo doido. Só uma miséria destas obriga a dizer o óbvio: os amigos são as pessoas de que nós gostamos e com quem estamos de vez em quando. Podemos nem sequer darmo-nos muito, ou bem, com elas. Ou gostar mais delas do que elas de nós. Não interessa. A amizade é um gosto egoísta, ou inevitabilidade, o caminho de um coração em roda-livre.
Os amigos têm de ser inúteis. Isto é, bastarem só por existir e, maravilhosamente, sobrarem-nos na alma só por quem e como são. O porquê, o onde e o quando não interessam. A amizade não tem ponto de partida, nem percurso, nem objetivo. É impossível lembrarmo-nos de como é que nos tornámos amigos de alguém ou pensarmos no futuro que vamos ter.
A glória da amizade é ser apenas presente. É por isso que dura para sempre; porque não contém expectativas nem planos nem ansiedade.
                                                                                   

  Miguel Esteves Cardoso, in ‘Explicações de Português’

Texto selecionado pela BE