5 Minutos de Leitura:A Morte Devagar

9 05 2011

 5 Minutos de Leitura

Terça-feira, 10 de Maio de 2011

 

A Morte Devagar

 

Morre lentamente quem não troca de ideias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.
Morre lentamente quem se torna escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajecto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não fala com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e o seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou um bilhete de cinema, mas muitos podem. E ainda assim alienam-se diante de um ecrã que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço na sua vida.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pontos nos is, a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos…
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não ri de si próprio.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio. Pode ser a depressão, que é uma doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda.
Morre lentamente quem passa os dias a queixar-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projecto antes de iniciá-lo, não fazendo perguntas sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe. Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, nessa altura já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante.
Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.

Martha Medeiros, publicista.

Texto seleccionado pelo prof. Manuel Lourenço

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